Por que escrevi O algoritmo do ressentimento: um depoimento pessoal sobre a corrosão da nossa vida pública
Há algum tempo, percebi que já não era mais possível compreender a dinâmica do nosso país sem encarar de frente uma questão incômoda e profunda: por que tantas pessoas escolhem acreditar na mentira, mesmo quando a verdade está amplamente disponível?
Essa dúvida não nasceu apenas de leituras teóricas. Ela se impôs no cotidiano. Começou a se desenhar de forma sutil entre 2013 e 2014 e atingiu um ponto de ruptura definitivo a partir de 2018. Vi colegas, profissionais altamente instruídos, médicos, advogados, professores, e até pessoas do meu convívio pessoal passarem a habitar universos de realidade paralela.
Percebi que não estávamos lidando meramente com divergências ideológicas entre esquerda e direita. O fenômeno era mais profundo e perturbador: a ideologia e o ambiente digital alteravam a própria estrutura de percepção e de convivência das pessoas. Como pesquisador ligado à saúde coletiva, ficou claro que a desinformação deixou de ser uma disputa abstrata de ideias para se tornar uma crise concreta, inclusive com impactos diretos sobre a vida e a saúde das populações, como a recente pandemia tristemente demonstrou.
A descoberta: a desinformação não é falha do sistema, é o produto
O aspecto mais inquietante dessa trajetória foi constatar que essa desorganização do debate público não é um acidente de percurso. Não se trata de uma falha das plataformas; é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar.
Nos anos 1950, Hannah Arendt mostrou como regimes autoritários não dependiam da verdade factual para se sustentar, mas sim de uma narrativa coerente capaz de canalizar o ressentimento acumulado das massas. O argumento central do livro O algoritmo do ressentimento é que essa lógica não desapareceu com o fim dos totalitarismos do século XX. Ela foi privatizada, algoritmizada e transformada em um modelo de negócios extremamente lucrativo.
Nas plataformas digitais dominantes, a indignação e o ódio engajam incomparavelmente mais do que a ponderação e os fatos. A estrutura econômica do capitalismo de vigilância monetiza a discórdia, corrompendo simultaneamente as nossas instituições democráticas (corrosão sistêmica) e a nossa capacidade de empatia e diálogo (corrosão ética).
Erosão da confiança e os microatos de resistência
Quando a confiança interpessoal se esfarrapa e as instituições perdem a sua capacidade de medição social, a própria razão pública se esvazia. Discutir apenas com dados e fatos muitas vezes se mostra ineficaz, pois o cérebro humano possui vulnerabilidades cognitivas exploradas com precisão cirúrgica por esses sistemas.
Contudo, O algoritmo do ressentimento não pretende ser um diagnóstico resignado ou um mero lamento sobre o estado das coisas. O objetivo é oferecer uma chave de leitura crítica, valendo-se das contribuições de pensadores como Arendt, Shoshana Zuboff, Byung-Chul Han e Daniel Kahneman, para que possamos retomar a autonomia sobre a nossa atenção e o nosso julgamento.
A reconstrução da esfera pública exige de nós microatos concretos de resistência no cotidiano. O mais simples e fundamental deles é a postura analítica antes da ação impulsiva: pausar e refletir antes de compartilhar.
Escrevi este livro para todos aqueles que se recusam a aceitar a degradação da democracia e a erosão do afeto social como inevitabilidades da era digital. A recuperação da confiança mútua e da razão compartilhada começa pela nossa recusa consciente em alimentar a engrenagem do ressentimento.
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ACP









